segunda-feira, 25 de março de 2013

Eu li : Ser Amado




Às vezes, é preciso conseguirmos o que não se consegue: parar de amar por um momento, para se ser amado por quem se ama.Seria bom podermos parar para nos sentirmos amados sem ser de volta, na confusão de duas pessoas a amarem-se. Se não amássemos quem amássemos, talvez pudéssemos receber o amor dela e saber como era. Mas não é provável. Se não a amássemos, não quereríamos saber. Ser amado seria um pedido, uma intromissão, um desconforto à espera de uma resposta nossa, de uma desilusão, de uma insensibilidade àquele amor que não queremos para nada, que nos apanhou e embaraça. Se calhar, na vida e na morte de quem ama e quem se ama, só se sente o não ser amado e o já não ser amado e, quando muito, o já ter sido amado. A ausência e a tristeza, por muito grandes que sejam, não são tão grandes como a presença, a alegria e a angústia do amor vivo, que ocupa os corpos todos e as almas todas. É pena que enquanto se é amado por alguém nunca pareça que se é. Amado, de certeza, incondicionalmente, como é amado - também sem saber - quem amamos. A maior sorte é pensar que a pessoa amada, à força de ser tão amada, quase por uma questão de empatia e reciprocidade, começa a enganar-se que nos ama também. É a que me cabe, graças à Maria João e ao amor com que a amo. Ela ama-me também. Sem ser por arrasto - e com atraso. É isto que ela me diz. Eu não acredito. Mas cada vez tenho menos razões para não acreditar. É muito. É muito mais. Obrigado, meu amor. 

Autor : 
Miguel Vicente Esteves Cardoso (Lisboa,25 de julho de 1955) é um crítico, escritor e jornalista português.Miguel Esteves Cardoso cresceu no seio de uma família da classe média-alta lisboeta.Aluno brilhante, fez estudos superiores no Rino Unido. Em 1979. Em 19988 abandonou a carreira acadêmica, para fundar o jorna O Independente.