domingo, 5 de janeiro de 2014

Eu Li : A Rua


Lembra o quanto a gente adorava passear nessa rua? Rua que era nossa e agora é minha. Rua onde nos beijamos pela primeira vez. Rua do passado. Ainda faço questão de passar por aqui todos os dias de manhã. Ando de bicicleta e até trago meus cachorros pra dar uma volta. A rua é a mesma, os banquinhos espalhados pela calçada também. Algumas árvores novas cresceram por aqui. Aquela ali não tinha nascido dois anos atrás. Isso é sinal que o tempo está passando. E as lembranças estão ficando no passado. Queria saber se você está feliz e se fez novas amigas. Você costumava ser tímida e péssima nisso. Nossas mães ainda são muita amigas e se falam várias vezes por semana. Talvez algum dia eu peça pra ela perguntar de você. Talvez.

Ouvi histórias que você mudou. De um jeito ruim. Dizem que todo mundo um dia muda. Deixou de ser tímida e começou a beber um pouquinho mais do que devia. Sua ex-melhor amiga veio me contar que você tinha passado mal em uma festa. Por beber um pouquinho demais. Ouvi dizer que agora você sofre pelas pessoas erradas e virou amigo das pessoas que um dia você odiou. Que hipocrisia. E, para quem tinha medo de ser a novata em uma escola nova, você se saiu bem. Parabéns. Sem ironias. Mas tenho certeza que, aí dentro, mesmo com todas essas mudanças, você continua sendo a mesma garota do interior que conheci.

Aqui vai uma pequena, e provavelmente óbvia, confissão: não estava bem no dia que terminamos. Você gritou meia dúvida de palavras sem sentido algum e começou a chorar. Não lembro muito bem quais foram suas últimas palavras, mas elas não se pareciam nada com “Eu te amo”. Tentei me aproximar e você se afastou. Segurei sua mão e você a soltou. E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, você bateu a porta. E na semana seguinte você se mudou. Pra bem longe. 450 quilômetros de distância. Talvez 500. Ou 600. A distância é sempre maior na nossa mente.

No dia seguinte, acordei com dor de cabeça. Havia um pedaço de papel jogado na porta do meu apartamento. Senti um aperto no peito. Era um pedido de desculpas. Inúmeras palavras que resumiam nossa história. Um punhado de erros e acertos. Mais erros do que acertos. Foram os poucos acertos que fizeram aquilo valer a pena. Enquanto durou. Nosso amor que pegou um atalho e chegou no lugar errado. Como dizem, rua sem saída. Um amor estrábico. É assim, nossa história chegou ao fim.

Autor : 
Raí Garcia dono do blog Rai Writes. Tem 15 anos e mora em São Paulo.